Síndromes Clínicas Amnésticas Não-Alzheimer

Gustavo Melo de Andrade Lima • 29 de setembro de 2023

O diagnóstico sindrômico da Demência na Doença de Alzheimer é clínico, portanto, baseado em relatos do próprio paciente e dos familiares que compartilham com ele o cotidiano, as reações e interações com o meio. Os relatos são trechos de histórias contadas ao médico, sempre acompanhados de uma subjetividade própria de quem narra. No caso do indivíduo com Doença de Alzheimer, essa subjetividade pode acontecer tanto pela própria experiência que é intrínseca ao indivíduo, como por uma “distorção” da realidade causada pela própria doença. Um exemplo típico dessa ‘’distorção’’ é o que chamamos de anosognosia, que significa não reconhecer o próprio sintoma/déficit. Por exemplo, alguns indivíduos que desenvolvem a doença não reconhecem a própria falha de memória, tendendo a relatar ao médico que está tudo bem e que não há esquecimentos. 

Partindo desta informação de que um diagnóstico clínico é baseado em relatos, entende-se que ele pode ser, algumas vezes, impreciso e difícil de ser realizado. Por trás dos conjuntos de sinais e sintomas de uma doença existe o que chamamos de patologia daquela doença. Na Doença de Alzheimer a principal patologia conhecida é a proteínopatia B amilóide, contudo, certamente não é a única, sabe-se que uma doença multifatorial com mais de uma patologia. O que eu gostaria de trazer neste texto é a informação de que existem outras patologias que não são proteínopatias B amilóide (típica do Alzheimer), mas que causarão síndromes clínicas muito semelhantes à Demência na Doença de Alzheimer. Entre elas, vou falar sobre a LATE (Limbic-predominant age-related TDP-43 encephalopathy) uma doença que mimetiza o Alzheimer, mas possui outra patologia. 


A LATE é uma doença que cursa com declínio cognitivo especialmente amnéstico (piora da memória) evoluindo, portanto, para uma Síndrome Demencial Amnéstica, ou seja, uma “Demência que mimetiza clinicamente o Alzheimer’’. A patologia desta doença (LATE) é uma proteínopatia TDP-43 em indivíduos com a idade avançada, especialmente acima dos 80 anos. A TDP-43 é uma proteína codificada pelo gene TARDBP que se liga ao RNA e DNA e tem múltiplas funções na regulação e expressão gênica. Normalmente ela se localiza no núcleo das células assumindo uma forma que chamamos de desfosforilada, mas quando existe a doença, essa proteína se acumula fora do núcleo, num local da célula chamado citoplasma, assumindo uma outra forma que chamamos de fosforilada e consequentemente causa a morte de neurônios, oligodendrócitos e astrócitos


Outra doença que cursa com proteínopatia por TDP-43 é a Demência Fronto-Temporal, que apesar de ter a mesma patologia, apresenta uma síndrome clínica diferente da LATE. As principais áreas cerebrais acometidas pela LATE são amigdala, hipocampo, giro frontal médio. Patologicamente, por meio de estudos de autópsia entende-se que o estágio 1 da doença acometeria amigdala, o estágio 2 acometeria hipocampo e o estágio 3 giro frontal médio.


Como foi dito anteriormente esta doença cursa com declínio amnéstico no início do quadro, evoluindo posteriormente para um declínio cognitivo de outros domínios e consequentemente cursando com um comprometimento funcional progressivo, o que a caracteriza como uma Síndrome Demencial. O comprometimento cognitivo de LATE é maior do que na Doença de Alzheimer, tem uma prevalência maior após os 80 anos. Pode existir comorbidade entre a Doença de Alzheimer e LATE, principalmente nos indivíduos mais velhos, o que torna o quadro mais severo.


Ainda não existem biomarcadores para LATE, sejam eles no sangue, líquor ou exames como PET. Um achado que pode sugerir LATE é uma acentuada atrofia do hipocampo na ressonância do encéfalo, assim como na doença de Alzheimer. Ao investigarmos algum paciente com suspeita de Síndrome Demencial Amnéstica e nos depararmos com a seguinte combinação: Patologia Amilóide negativa (líquor ou PET amilóide), Patologia TAU negativa (líquor) e evidência de alteração morfológica do hipocampo (ressonância com hipotrofia do hipocampo) estamos diante de uma Doença Não-Alzheimer com características clínicas de Alzheimer, em indivíduos acima de 80 anos, devemos particularmente desconfiar do diagnóstico de LATE. 


O impacto socioeconômico deste quadro é ainda subestimado, pois estamos falando de uma patologia descrita em 2006 (Proteínopatia TDP-43) e de uma doença descrita em consenso apenas em 2019. Existe um vasto campo a ser descoberto sobre as relações das Síndromes Clínicas Amnésticas e suas patologias. 


Para mais informações sobre LATE sugiro a leitura do artigo Limbic-predominant age-related TDP-43 encephalopathy (LATE): consesous working group report do pesquisador P.T. Nelson e sua equipe da Universidade de Kentucky, EUA, publicado na BRAIN Journal of Neurology. 

Doi:10.1093/brain/awz099

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