Avaliação Neuropsicológica: uma ferramenta de auxílio diagnóstico

Natalia Faiolo Rossetto Filippini • 12 de dezembro de 2023

Há séculos que o interesse pelo estudo do cérebro e o impacto dele no comportamento, emoção e funcionalidade chama a atenção de muitos profissionais da área da saúde, bem como os demais públicos. Existem relatos desde o período mesolítico onde era comum realizar perfuração no crânio, conhecida como a técnica de trepanação, para tentar compreender o comportamento ‘diferente’ que pessoas com transtornos mentais apresentavam. Acreditava-se, à época, que esses pacientes estariam possuídos por entidades demoníacas e que tal procedimento poderia libertá-los deste mal. [i]


Com a sofisticação de novos aprendizados, criam-se técnicas e áreas de estudo para compreender o comportamento através do funcionamento cerebral sem o uso de estratégias invasivas e, por vezes fatais, como ocorrido em um passado distante, dentre elas a Ciência da Neuropsicologia.


 A Neuropsicologia se desenvolve no século XX como uma ciência moderna de convergência entre a Psicologia e a Neurologia, tendo como objeto comum estudar as alterações comportamentais advindas de lesões cerebrais [ii]. Nos dias atuais, e com a evolução frente a novos achados, podemos compreender que a Neuropsicologia como uma ciência mais complexa e ampla, situada entre a Neurociência Cognitiva e a Ciência do Comportamento, onde visa compreender os estados mentais mais complexos, tais como linguagem, memória, funções executivas, entre outras e a relação desses no comportamento, manejo emocional e funcionalidade dentro das práticas diárias. Considera-se uma ciência multidisciplinar que envolve conceitos e estudos vindos da neuroanatomia, neurofisiologia, neuroquímica, neurofarmacologia, psicometria, psicologia clínica e experimental, psicopatologia e cognição.



 A Avaliação Neuropsicológica é uma ferramenta, usada dentro da Neuropsicologia, que implica no uso de técnicas psicométricas através de testes neuropsicológicos, entrevistas, observações e provas de rastreios cognitivos e funcionais que possam indicar prejuízos ou comprometimentos de determinada função cognitiva. Através dela, objetiva-se investigar, identificar e descrever prejuízos ou alterações funcionais que não puderam ser detectadas objetivamente por outras técnicas diagnósticas, tal como exames de neuroimagem. [iii]

Com os resultados desta avaliação, é possível complementar a análise de diversos quadros clínicos, tais como doenças neurodegenerativas (por exemplo, a Doença de Alzheimer); transtornos do neurodesenvolvimento (tal como o Transtorno do Espectro Autista e Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade); auxilia a verificar a implicação dos traumas cranioencefálico na cognição decorrente de acidentes, assim como também pode ajudar à identificar os impactos da cognição frente a manifestação emocional e do comportamento.


Para além da finalidade diagnóstica, a avaliação neuropsicológica também pode ser utilizada para diferenciar um quadro neuropsiquiátrico de um quadro neurocognitivo, por exemplo, identificar se o paciente possui Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG) ou Transtorno do Déficit da Atenção e Hiperatividade (TDAH), uma vez que a manifestação dos sintomas de ambos os quadros pode, por vezes, se confundir entre si.


Através dos resultados obtidos na avaliação o paciente e profissional que o acompanha também podem:


·       Ter maior conhecimento sobre a funcionalidade cognitiva, emocional e comportamental;

·       Criar estratégias e intervenções que possam reduzir os sintomas;

·       Apropriar-se de habilidades potentes pouco utilizadas ou estimuladas em sua rotina;

·       Ser encaminhado para demais tratamentos e reabilitação que possam auxiliar no conforto de suas práticas de vida diária.


A avaliação neuropsicológica, frequentemente, é solicitada através de um pedido médico para auxiliar no diagnóstico de determinado quatro patológico ou não patológico, mas também pode ser solicitada pelo próprio paciente, uma vez que ela possibilita o acesso ao conhecimento geral de seu funcionamento.


Autora:

Natalia Faiolo Rossetto Filippini (CRP 06/117891). Psicóloga especialista em Neuropsicologia pelo Instituto Albert Einstein, com extensão em Avaliação Neuropsicológica no Envelhecimento e Demências pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e qualificação em Avaliação e Reabilitação Neuropsicológica pelo Serviço de Atendimento de Reabilitação ao Idosos (SARI) em parceria com a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).


[i] CASTRO, F. dos S.; FERNANDEZ-LANDEIRA, J. Alma, mente e cérebro na pré-história e nas primeiras civilizações humanas. Psicol. Reflex. Crit. 23 (1) • Abr 2010

[ii] PINHEIRO, M. Aspectos históricos da neuropsicologia: subsídios para a formação de educadores. Educar, Curitiba, n. 25, p. 175-196, 2005. Editora UFPR

[iii] RAMOS, A. A., HAMDAN, A.C. O crescimento da avaliação neuropsicológica no Brasil: uma revisão sistemática. Psicologia: Ciência e Profissão Abr/Jun. 2016 v. 36 n°2, 471-485. DOI: 10.1590/1982-3703001792013


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